A vida social de quem tem mais de 60 anos não se resume a festas de família. Com muita vitalidade, eles frequentam boates do mesmo jeito que filhos e netos: saem para a balada para curtir com os amigos, se jogar nas pistas, dar uns beijos e até, quem sabe, encontrar a alma gêmea. Maria do Rosário Dupin Coutinho, de 60 anos, e José Carlos Lopes Patrício de Assis, de 61, se encontraram em uma balada. Entre lugares badalados e tradicionais, eles são clientes assíduos do happy hour do clube Mackenzie, no Bairro São Pedro, Região Centro-Sul da capital. A troca de olhares não deixa dúvida de que são namorados ou “namoridos”, como preferem ser nomeados. O casal chamou a atenção da reportagem no segundo dia de balada exatamente pela forma como flertava.

Uma cumplicidade de apaixonados. Os cabelos escovados, a maquiagem impecável, o bolero listrado sobre o vestido preto revelam que ela levou algum tempo para se vestir para a festa. A graça de Maria do Rosário não só conquistou José Carlos, como foi um dos motivos que o fez deixar o Grupo de Descasados de Belo Horizonte (GDBH). Como o nome indica, trata-se de reunião de pessoas separadas que saem juntas para se divertir. A primeira incursão do Bem Viver foi na boate Nova Camponeza, a quatro dias do réveillon. Sem muita sorte, porém, apesar da grande expectativa. Devido às chuvas de fim de ano e ao cancelamento do show de uma banda que se apresentaria, a casa não reuniu o público do local, que costuma ser bastante fiel.

Dias depois a reportagem foi ao happy hour, que começa às 19h, onde estava o casal Maria do Rosário e José Carlos. Os dois se conheceram de maneira casual, há quatro anos, nesse mesmo evento. Ela estava em uma mesa com um grupo de amigos. Ele, de pé no bar, a observava. Depois da troca de olhares, forma ainda hoje eficiente de comunicação entre o casal, ele se sentiu seguro para chamá-la para dançar. “Deu química”, lembra José Carlos. Na sequência do elogio aos olhos claros de Maria do Rosário, ele não escondeu que a achava muito sexy. No tempo de solteirice, antes de conhecer a namorada, José Carlos frequentou o Tip Top, Engenho de Minas e outras boates.

Depois que se conheceram, passaram a frequentar a noite juntos. Como bom baladeiro, o casal notívago já chegou a sair quase todos os dias. “Sair agora é bem melhor do que quando era mais jovem. Você tem mais maturidade e segurança no que está fazendo. Já não se tem mais medo. Você é o dono dos próprios pés e nariz. Atualmente, vou a mais baladas do que quando era jovem”, avalia. Para quem nasceu no interior, Teófilo Otoni, e, aos 19 anos, veio para a capital, a maturidade é sinônimo de emancipação. Quem frequenta a noite, independentemente da faixa etária, busca entretenimento e liberdade.

Geração

O happy hour do Mackenzie foi proposto pelo atual presidente do clube, Durval Guimarães, cujo aniversário de 62 anos, como não poderia deixar de ser, foi comemorado na terça-feira, durante o evento. “O mundo tem uma configuração diferente”, considera. Para ele, sua geração, que conta com nomes como Mick Jagger, Paul McCartney, entre outros, ainda é muito produtiva, principalmente quando o assunto é música. Em sua avaliação, quando a trilha é boa, pessoas de todas as idades se misturam. Esbanjando vitalidade, ele afasta o rótulo de baile da terceira idade. “Não queremos nunca que seja baile da terceira idade. É para todo mundo”, afirma.

Muitos casais se animam aos primeiros acordes de “pobre menina, não tem ninguém”, enquanto a jornalista Ângela Maria Rego, de 58, e o advogado Edmundo Edson Ramos, de 66, destacam-se no salão. Os dois literalmente deslizam e rodopiam. O entrosamento foi construído em 16 anos de cumplicidade na dança e no amor. Chegaram, inclusive, a integrar o Grupo de Dança de Santa Teresa (GDST). Quando Edmundo era presidente do grupo, saía para dançar praticamente todas as noites, devido à quantidade de convites que recebia. “A dança de salão nos faz continuar como namorados.”

Depois que ambos se separaram do primeiro casamento, apaixonaram-se em um encontro casual. “Ele estava de óculos e, quando os tirou, percebi que ele tinha mudado”, lembra Ângela. Quando Edmundo a viu pensou: “Um tesão”. Em vez de viverem a vida de filhos e netos, homens e mulheres com mais de 60 anos vivem sua própria história. Muitos estão divorciados, outros viúvos, mas por que não sair para se divertir, conhecer pessoas, fazer amigos e dançar?

Embora não seja regra entre eles a questão do horário, o consultor Augusto de Almeida, de 62, considera que o término da balada é fundamental. “Não vou sair de casa às 22h. Gosto da ideia de um happy hour dançante. Muitas vezes, vou depois que saio do trabalho na Savassi”, diz. Augusto aproveita o ambiente para fazer novos amigos, rever outros de longa data e, eventualmente, por que não?, paquerar. Quando se é criança, quem tem 20 anos é considerado velho. Quem está no alto dos 20 anos não pensa a mesma coisa. Na verdade, a velhice é como o amanhã. Do ponto de vista filosófico, nunca chega. “Não me sinto velho. Tenho muito pique para sair, para viajar. O José Carlos é da mesma forma”, garante Maria do Rosário.

FONTE

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