O atendimento a população idosa é gravemente prejudicado pela falta de profissionais especializados em geriatria e gerontologia. Sem os cuidados devidos, o risco de uma avaliação de saúde incompleta é maior.

Dos 20 milhões de idosos brasileiros, cerca de 25% têm a saúde fragilizada por problemas físicos ou cognitivos (5 milhões no total). “O ideal seria ter um geriatra para cada grupo de 563 idosos. Mas faltam no país cerca de 8.800 profissionais”, afirma João Carlos Barbosa Machado, presidente do XVII Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, que acontece entre 28 e 31 de julho, em Belo Horizonte (MG).

Hoje, existem apenas 21 residências credenciadas pelo Ministério da Educação (MEC). Elas são responsáveis pela formação de aproximadamente 100 profissionais por ano. “Mas isso está longe de ser suficiente, até porque a população tem envelhecido rapidamente”, alerta o especialista em saúde pública Alexandre Kalache, que esteve à frente dos programas de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS) por 12 anos.

No Brasil, a população com idade igual ou superior a 65 anos representa 6,67% da população total do país, número que deve dobrar até 2050. “Nos Estados Unidos, por exemplo, existem cerca de 2 mil geriatras, mas o ideal seria ter seis vezes mais profissionais”, comenta Kalache.

Toda a classe médica

Prestar um bom atendimento aos idosos não é responsabilidade exclusiva do geriatra, mas de todos os médicos. Com o envelhecimento da população, haverá cada vez mais pacientes com idade avançada em consultórios de diversas especialidades.

“É preciso ‘gerontolizar’ o currículo das faculdades de medicina, com disciplinas específicas para cardiologistas, nutrólogos, dermatologistas e assim por diante”, avalia Kalache. Já para Machado, o ideal seria tornar obrigatórias as aulas de geriatria mesmo no currículo básico das faculdades. “Se tivermos bons professores, eles vão servir de exemplo aos alunos”, afirma.

Geriatria e gerontologia

O geriatra não precisa necessariamente atender a todos os idosos, ele pode se dedicar aos casos mais complexos e delicados. Os demais pacientes podem ser atendidos por outros médicos, de atenção primária à saúde, que tenham recebido orientação dos especialistas. “É preciso capacitar gerontologistas também”, recomenda Machado.

Gerontologistas são os profissionais treinados para o atendimento do idoso, sem a necessidade de ser médico. Eles podem ser simplesmente profissionais de saúde ou, até mesmo, profissionais de outras áreas. “O atendimento ao idoso é diferente. Não se trata a doença, o foco é na pessoa”, afirma Machado. Aspectos sociais, acesso ao lazer, facilidade para os transportes públicos, tudo requer atenção especial às possíveis limitações do idoso.

Nos ônibus, por exemplo, os motoristas devem estar instruídos a esperar o idoso se sentar ou se apoiar com firmeza antes de dar o tranco da partida. Isso evita quedas que, em idades avançadas, têm recuperação demorada e delicada.

Outro exemplo é o papel do porteiro ou do zelador de prédios onde vivem idosos. Eles podem ajudar em tarefas cotidianas simples, como a troca de uma lâmpada, também assim evitando acidentes domésticos.

Quando ir ao geriatra?

O papel do geriatra está na prevenção e promoção da saúde, atuando também na reabilitação para o estabelecimento das funções físicas e cognitivas do idoso. “Deve-se ter um envelhecimento ativo”, diz Kalache.

Esse suporte à saúde pode ser dado antes mesmo dos 60 anos. Quando o idoso tem a saúde frágil e precisa se consultar em diversos médicos, o geriatra ajuda a gerenciar o uso de medicamentos para evitar intoxicação e interação de muitas substâncias. “O geriatra coloca ordem na casa”, define Machado.

Mas algumas atitudes já podem ser tomadas a partir da juventude. “São cinco coisas fundamentais: não fumar, beber com moderação, fazer exercícios, ter amigos e se alimentar bem”, comenta Karla Cristina Giacomin, diretora científica do congresso.

* O repórter viajou a convite da organização do Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia

FONTE

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