João Mariano Sepúlveda [cardiogeriatra]

Nada é mais comum quando se medica um paciente de mais idade do que se incidir no processo de sobreposição de medicamentos, tendo como conseqüência o problema que dá título a esse artigo! Dois em cinco casos de intoxicação medicamentosa acometem pacientes acima dos 65 anos de idade!

O idoso, como o nome já diz traz consigo fator primário de risco e que possibilita a presença diversas patologias!

Regularmente o paciente já chega ao consultório com ao menos três a quatro diagnósticos diversos firmados, hipertensão, diabetes, dislipidemia e ainda a osteoporose ou osteoartrose! Ou ambas! Pressão alta, glicose, taxas de gorduras, reumatismo, formas populares de nomear estes males que necessitam de no mínimo o uso de quatro a cinco drogas diferentes, tornando seu usuário um potencial candidato a interação e intoxicação medicamentosa.

Farmacoterapia é a matéria que estuda a polifarmácia, os mecanismos básicos de absorção, distribuição, metabolização e excreção dos medicamentos!

No idoso deve-se levar em conta a redução metabólica e absortiva que é reflexa, aumentando a meia vida dos remédios administrados, potencializando seus efeitos! Lembrar que muitos fármacos dependem de ligações protéicas, principalmente com a albumina, constantemente diminuída no envelhecimento, logo, interferindo com a utilização do medicamento!

Exemplos clássicos ocorrem todos os dias na prática clinica: Senhora de 70 anos, com quadro de dores em joelhos, usando um antiinflamatório comum, que lhe foi ensinado por sua vizinha, a qual melhorou de um quadro quase igual!!! Este lhe causa elevação da pressão!

Acompanhada regularmente, vai a consulta com seu cardiologista, mas esquece de relatar o uso do medicamento! O medico constata um descontrole tensional, e aumenta as doses de sua medicação!! Uma semana depois ela termina o uso do medicamento antiinflamatório, melhor das dores volta a caminhar. Sua pressão se reduz abruptamente, ela sofre uma síncope, cai, fratura uma vértebra ou a bacia, fica no leito em repouso, ou se interna em um hospital para correção cirúrgica, se sujeita a infecção hospitalar, qualidade de vida, estado depressivo, fragilização…….!

Segundo exemplo: senhor de 70 anos, epilético, com foco ativo, seqüela e isquemia cerebral, em terapia com anticonvulsivantes, a cada 8hs, há 5 anos, e há 4 anos sem ter convulsões!! Estabilizado!!

Sente uma azia forte, vai a um clínico que com a melhor das intenções lhe receita omemprazol para o estomago, que melhora, mas reduz drasticamente o efeito de sua medicação em até 50%, logo aquele medicamento que o protegia por 8 horas, passa a protegê-lo apenas por 4 horas, dias depois o senhor tem uma convulsão cai….!

UFA! Apenas dois fármacos mal utilizados, e todo este processo!?

Ficção? Infelizmente não! Muito mais comum do que se pensa! Incidem diariamente disfarçadas de pioras de quadros já estabelecidos, sob o manto da história clinica mal colhida em consultas céleres como exigem os sobrecarregados serviços de saúde, viram verdades e passam absolutamente desapercebidas!

A redução do risco do mau uso de fármacos, se faz, primeiro evitando a auto medicação, por mais tentador que te pareça utilizar um igualzinho a da sua vizinha ou de seu amigo! Depois reunir a maior quantidade possível de informações sobre o que vai consumir, e sobre o que esta utilizando e fornecê-la a seu medico, mesmo que isso acarrete uma longa e pertinente palestra sobre a auto medicação que se possa estar praticando. Realizar ao menos uma vez na vida o teste para se saber sobre alergia a medicamentos, como, aspirina, dipirona, antiinflamatórios, etc. Estar alerta para as novidades, se antes da ultima consulta, você não sentia essa dor de estomago, e a partir dela, passou a sentir, e se seu medico trocou seu medicamento muito provavelmente, essa troca foi a responsável. Comunique-se com ele, e informe, com certeza a correção se dará facilmente e sem maiores problemas!

Dentre os medicamentos mais insidiosos, destaco os já citados antiinflamatórios, por seus riscos de lesões gástricas e hipertensão, os antialérgicos, anti-histamínicos que interferem no ritmo cardíaco, podendo potencializar ou desencadear arritmias e as muito utilizadas estatinas de alta potência que podem levar a uma elevação das enzimas musculares, intervindo na absorção de outras medicações! Lembro ainda os antidepressivos, ansiolíticos, e medicamentos para o sistema nervoso que tem forte interação e poder de impregnação.

Para todos, sugiro a titulação progressiva das drogas, com a utilização do mínimo necessário, adaptadas para a idade e para o estado do paciente!

FONTE

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