A trabalhadora braçal aposentada Ignês Petti, 68 anos, tem um problema sério com as alergias. Sem motivo ou razão aparente, o corpo começa a ficar empolado e a coceira é inevitável. A pele, muito branca, fica vermelha com a coceira, que geralmente não passa antes de dois ou três dias. Ela já fez uma verdadeira peregrinação por consultórios de médicos na cidade, particulares e públicos, mas nenhum tratamento mostrou-se eficaz. Desde as primeiras manifestações do problema, ela busca remédios que aliviem o problema. Toma a medicação indicada pelos médicos, mas também busca suas próprias alternativas, especialmente por recomendação de amigas.

“Quando percebo que o remédio não adianta, deixo o tratamento e tento remediar com meus cremes e unguentos naturais”, conta. Ignês não é caso único. Se trocarmos o nome e os principais sintomas, veremos que essa é a realidade para um grande número de idosos. Um estudo realizado pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto mostra que, de cada cem que precisam tomar remédios regularmente, pelo menos 44 possuem receitas médicas com medicamentos considerados inadequados para eles. O dado indica que, na prática, idosos tomam medicações que, além de não resolverem seus problemas de saúde, podem até mesmo piorar o quadro geral de saúde.

A pesquisa foi realizada pelo farmacêutico André de Oliveira Baldoni e mostrou outros dados preocupantes: 30,9% dos idosos tomam remédios por conta própria, a famigerada automedicação, enquanto 37,1% não usam os remédios conforme prescritos na receita. “O estudo mostra que uma porcentagem significativa de idosos não recebem o tratamento correto e, quando recebem, não utilizam os medicamentos da forma prescrita, o que pode gerar problemas sérios”, conta ele, ressaltando que a pesquisa mostra ainda que 46,2% dos idosos relataram reações adversas aos medicamentos e apenas 12,6% receberam orientações do farmacêutico quando retiraram os remédios. “Esse índice é muito baixo. Para o bem da saúde dessas pessoas, ele deveria ser bem maior”, comenta.

O trabalho, divulgado este ano, foi realizado com mil idosos de Ribeirão Preto entre novembro de 2008 e maio de 2009. Dentre todos os entrevistados, 468 usam apenas as farmácias do Sistema Único de Saúde (SUS) para conseguir os medicamentos. A média de idade dos participantes foi de 69,8 anos. Um remédio é considerado inadequado para um idoso quando faltam evidências sobre sua segurança para essa faixa etária. Além disso, como o organismo dos mais velhos absorve e elimina o remédio com menos eficácia, alguns medicamentos devem ser evitados por eles.

Baldoni dá de exemplo os remédios usados para tratar alergias. A pesquisa mostrou que alguns idosos receberam prescrições de antialérgicos de primeira geração, mas esses medicamentos causam sonolência, o que aumenta o risco de quedas em pessoas dessa faixa etária. Por isso, os antialérgicos de primeira geração são considerados inadequados para os mais velhos. “O ideal seria prescrever um antialérgico de segunda geração. Mas, muitas vezes, esses remédios não são encontrados no sistema público.

Automedicação

Para o médico e secretário da Saúde de Ribeirão Preto, Stênio Miranda, um dado especialmente preocupante na pesquisa é o que indica o nível de automedicação dos idosos. Ele ressalta que, em sua opinião, esse é um dos maiores – senão o maior – vilão da rede pública de saúde. “Muitas vezes o paciente tem o tratamento correto, mas não segue à risca as determinações. Se considerarmos que, em cada dez, três utilizam esse processo, veremos que essa situação é um problema sério para a saúde pública”, ressalta.

E o especialista não está errado. Marco Aurélio Dainezi, diretor do Hospital São Joaquim, em Franca, reconhece que a automedicação traz uma série de problemas. “Acontece que alguns medicamentos não são indicados para algumas pessoas. Só um médico pode fazer a prescrição correta. A partir de quando a pessoa toma, por conta própria, os medicamentos, coisas graves e sérias, inclusive com risco de morte para o paciente, podem acontecer”, informa.

Outro problema importante, afirma Stênio, é a adaptação das receitas. É o caso de Adalberto Bogolin, 52 anos, professor aposentado. Com problemas cardíacos, ele recebeu a receita de tomar uma cápsula de determinado medicamento por dia para controlar a pressão. Por conta própria, foi baixando a dose até tomar apenas um quarto do comprimido por dia.

“A medicação tinha efeitos colaterais e eu fui percebendo que minha necessidade é menor. Diminui até chegar a um quarto. Isso foi nos primeiros meses depois da recomendação. Depois, percebi que posso tomar o remédio só quando a pressão está alterada”, conta ele, que informa que controla a pressão em pelo menos duas auferições diárias. “Quando está alterada, tomo. Quando está normal, não”. Independe da eficácia ou não, Adalberto diz que não teve mais problemas desde que seguiu a sua receita. A postura está “totalmente errada”, dizem os especialistas.

FONTE

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