Por Mariana Fulfaro – Terapeuta Ocupacional

No Brasil, para trabalhar na área da saúde é necessário estar credenciado a um órgão regulamentador. Cada profissão tem seu próprio conselho, como a medicina com o CRM, a enfermagem com o COREN, e a fisioterapia e a terapia ocupacional com o CREFITO.

Essas instituições, além de fiscalizarem o trabalho dos profissionais, costumam disponibilizar alguns materiais para divulgar novidades aos seus associados, como o CREFITO que produz uma revista mensalmente.

Fui convidada para dar uma entrevista para a Revista do CREFITO para falar sobre o tratamento de quedas de idosos e dar dicas sobre como adaptar uma casa. Na matéria há uma ilustração muito legal com várias dicas para deixar o ambiente doméstico seguro (para ler a matéria clique aqui).

Abaixo coloquei esse bate papo na íntegra, pois ele poderá ajudar quem anda antenado na qualidade de vida dos idosos.

CREFITO – Quais são as principais causas de acidentes com idosos?

Mariana Fulfaro – As principais causas de quedas com idosos são a fraqueza muscular, a diminuição da visão e da audição, a falta de equilíbrio e o uso inadequado de medicamentos.

Quais os lugares mais comuns onde acontecem as quedas?

Em casa é onde os idosos mais caem, os grandes vilões são as escadas e os banheiros.

Como os familiares do paciente podem identificar sinais que levariam os idosos a sofrerem quedas?

O primeiro passo é prestar a atenção no idoso. Os familiares devem olhar se ele tropeça com frequência, se está com alguma dificuldade para enxergar, se tem déficit cognitivo e se tem dificuldade para andar ou se levantar depois de sentado. Se apresentar alguns desses itens, ele é um caidor em potencial.

Dentro da terapia ocupacional, quais são os principais instrumentos utilizados para tratamento de quedas? Como adaptar a casa para o idoso?

A atuação do terapeuta ocupacional é focada nas atividades diárias e no desempenho ocupacional, por isso ao receber esse idoso caidor ele procura conhecer sua rotina, saber se tem algum déficit cognitivo ou dificuldades físicas, as roupas e calçados que costuma usar e seu histórico de quedas. Em seguida investiga os ambientes pelos quais essa pessoa transita e seus hábitos. Feito isso, são propostas mudanças, que podem incluir instalação de barras, melhora da iluminação, fixação de tapetes, aumento do espaço livre e fitas de alerta em degraus. Nem sempre o que se propõe o idoso aceita ou é viável para a família. Há famílias que não têm dinheiro para instalar barras de apoio no banheiro, por exemplo. Neste caso, já cheguei a orientar que fizessem essas barras com ferro galvanizado, aquele de antena de TV. Para que uma mudança ou adaptação na casa do idoso seja bem sucedida o profissional deve lembrar que aquele não é um espaço qualquer. A casa de uma pessoa é cheia de significados e lembranças que fazem parte de sua história, e isso está mais presente ainda quando falamos em idosos.

Qual o método que traz mais resultado no tratamento de idosos com traumas pós-quedas?

O trauma pós queda mais comum nas quedas é a fratura de algum osso – em muitos casos lesões graves que podem levar a morte. O tratamento nesses casos é o mesmo que se dá em qualquer fratura: adaptação das atividades básicas de vida diária enquanto a pessoa estiver em recuperação que pode levar bastante tempo, pois é comum os idosos sentirem medo de retomar seu dia-a-dia após o acidente.

Como é feito o acompanhamento do paciente durante após o tratamento?

Durante o tratamento o terapeuta ocupacional procura reforçar o que já foi orientado e se necessário faz alterações no plano inicial, de acordo com a viabilidade do projeto. Quando o tratamento termina, são agendados retornos periódicos para manter as mudanças e evitar que novas quedas ocorram. Nesse processo é importante ressaltar o papel da família, pois depois que são feitas as mudanças são as pessoas próximas as encarregadas de mantê-las.

Qual dos males é mais difícil tratar? Físicos ou cognitivos?

Sem dúvida os cognitivos. Quando há um déficit físico teoricamente é só fazer a adaptação que o idoso irá seguir o que foi orientado. Já quando os déficits são cognitivos, é necessário que o cuidador reforce constantemente as orientações e assuma a responsabilidade pela prevenção das quedas. Quando um idoso está em determinado grau de demência, por exemplo, dificilmente irá se lembrar que precisa segurar no corrimão para andar.

Em casos de doenças degenerativas qual é o melhor tratamento?

No caso das doenças degenerativas as adaptações são feitas aos poucos, conforme as perdas funcionais avançam. Isso é importante para não sobrecarregar ou assustar o paciente com mudanças que só precisarão ser feitas no estágio final da doença.

Existem pacientes que rejeitam o tratamento ou a mudança da rotina depois do acidente?

Existem sim. Para alguns a queda representa muito mais do que simplesmente cair. Eles vêem a queda como a concretização de um declínio funcional, como se estivesse incapaz. Há casos de pessoas que desenvolvem quadros depressivos após cair.

Quais são as maiores queixas dos pacientes para se adaptar ao novo estilo devida?

No tratamento de quedas não há exatamente mudanças no estilo de vida. O terapeuta ocupacional leva em conta os desejos, a personalidade e hábitos da pessoa, por isso essas mudanças não costumam ser radicais. Já tive pacientes idosas que se recusaram a tirar os tapetes de suas casas, mesmo sabendo que eles ofereciam risco. Nesses casos é preciso manejar a situação e encontrar um meio termo, como fixar fitas adesivas antiderrapantes.

Caso a família não tenha condições de tratar de forma adequada o idoso, qual é o procedimento?

O papel do terapeuta ocupacional é buscar soluções que sejam adequadas para a condição familiar do idoso. Se a família tiver poucos recursos para alterar grandes estruturas da casa, por exemplo, o terapeuta ocupacional tem condições de sugerir alternativas.

Devido ao aumento no número de idosos no país, como os terapeutas ocupacionais estão se preparando para atender esse aumento da demanda se pacientes?

Essa é uma preocupação de toda a sociedade. Já se pode ver algumas mudanças nas universidades, que têm oferecido mais cursos de terapia ocupacional. Também a pouco tempo os convênios passaram a cobrir esse tipo de serviço.

Ter uma casa adaptada custa caro? Quais as soluções simples, para quem não tem dinheiro e quer manter uma casa segura para o idoso?

A adaptação de uma casa pode ficar tanto cara quanto barata, isso vai depender dos materiais utilizados. Existem soluções simples que podem garantir a segurança do idoso gastando pouco, como instalar corrimão de ferro galvanizado ou tubo de PVC recheado com cimento, retirar tapetes, fios e objetos soltos pelo chão, colocar fitas de alerta nos degraus e antiderrapantes, manter os ambientes bem iluminados e com espaço livre para circulação, evitar encerar o chão, organizar os objetos de forma que os mais utilizados fiquem em lugar de fácil acesso, evitar andar de meias pela casa, e evitar usar sapato com salto alto e roupas esfregando o chão. Já se a família tiver condições financeiras as mudanças podem incluir a troca de piso, de móveis e da cor da parede, instalação de spots de luz, instalação de elevador de assento sanitário e construção de rampas de acesso.

FONTE

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...