A proposta é quebrar as barreiras do medo e usar as tecnologias para se relacionar e fazer amizades virtuais

Há 53 anos, quando a vendedora Liana Costa nasceu não havia internet. Durante boa parte da sua vida, ela aprendeu a se comunicar dando recados, escrevendo cartas e usando o telefone. Hoje, a vendedora diz ter sido forçada a entrar na era digital. Liga para as amigas e elas só querem saber de se falar, interagir virtualmente, tudo “on line”.

“Ninguém conversa mais ao vivo, só sabe mandar e-mail. Se a gente não se atualizar, fica de fora, sozinha na depressão”, comenta Liana que, tenta disfarçar a solidão “navegando” em redes sociais. Entretanto, ela não é a única que deseja se manter antenada com as novas tecnologias. Outros dez idosos participaram, ontem à tarde, da Oficina de Alfabetização Digital para Terceira Idade, organizada pela Prefeitura de Fortaleza, no Telecentro da Biblioteca Municipal Dolor Barreira.

Antenado

Para o facilitador da Oficina, Raphael Magalhães, a maioria dos participantes do curso quer se afinar com o computador para poder ampliar a rede de sociabilidade. “O velho hoje não quer mais ficar de fora das novidades, estar sozinho, isolado em um fundo de rede. Quer conquistar o mundo, curtir a vida. A internet ajuda muito”, afirma.

Entre os anseios da turma, explica o facilitador, está o de aprender a digitar, mandar mensagens instantâneas, postar fotos, usar redes sociais, assistir vídeos, enfim, ficar “plugado” com gente de todo o mundo.

Para a diretora do Pirambu Digital, Josilda Ribeiro, o público da terceira idade tem sido o que mais tem demandando formação. Hoje, o jovem já sabe como mexer nas ferramentas básicas da internet desde criança, pois já nasceu na geração digital. Para os idosos, os desafios aumentam, há que se quebrar todas as barreiras do medo e do preconceito que acabam levando à exclusão tecnológica, explica a diretora da organização.

“Temos recebidos pessoas mais velhas que já fizeram cursos com a gente. Vamos abrir novas turmas em julho. A tendência é que todos se incluam”, afirma Josilda Ribeiro.

A cooperativa do Pirambu Digital oferece, por exemplo, um serviço inovador e quem tem ajudado muitos da comunidade: o Personal Trainer de Informática, um instrutor qualificado que ministra aulas em informática na própria residência, sem precisar de locomoção.

A aposentada, Maria dos Santos Almeida, 61, é uma das que quer se aprofundar e aprender mais com as tecnologias. Além de conversar com as amigas, botar as conversar em dia, ela usa as ferramentas virtuais para ler bons textos, ficar por dentro das notícias e se distrair um pouco. “Até brigo com minha família para a gente dividir o tempo, senão ficam na internet o dia todo e não me dão chance alguma”, reclama a senhora.

Benefícios

Além da possibilidade de fugir do tédio e solidão, o uso do computador faz bem à saúde. Lidar com a internet pode fazer com que idosos trabalhem melhor a região da memória e tomada de decisões, além de ser mais uma importante aliada para que ele não perca a capacidade de raciocínio, explica o pedagogo e coordenador do Curso de Informática da Universidade Sem Fronteiras, em Fortaleza, Ricardo Temoteo.

“Temos cerca de 300 participantes nas aulas semanais. O interessante é que o idoso aprende muito quando se envolve com a tecnologia, ativa o cérebro, se relaciona sem ter que depender mais tanto dos filhos, até sem sair de casa. Aumenta a liberdade e a autonomia”, frisa o coordenador do curso.

A melhor maneira de começar a ensinar sobre as novas tecnologias é deixar o aluno à vontade. No caso da geração mais velha, entender as limitações físicas e os tempos de cada um é fundamental para não existir frustração. “Não vale ficando querendo comparar a desenvoltura de um senhor com 70 anos com um adolescente de 15. Cada um no seu ritmo”, afirma.

Estudo

Pesquisadores da Universidade da Califórnia realizaram, em 2009, estudo com 24 pessoas entre 55 e 78 anos. Depois do primeiro contato com o computador, foram submetidas à ressonância magnética. O resultado mostrou atividade intensa nas áreas de linguagem, leitura, memória e capacidade visual.

Enquete
Enfrentar o medo

“Até tento mexer com as novas tecnologias, mas não tenho muito saco. Acho bacana demais quem sabe e gosta”
Itamir Monteiro, 64 ANOS, Aposentada

“Quando fico na internet, até me esqueço das tristezas e da depressão. É muito bom fazer novas amizades todo dia” Liana Costa, 53 ANOS, Vendedora

“Tenho visto muitos idosos aprendendo a usar a internet, mas também conheço outros que não têm mais paciência” Mirela Monteiro, 29 ANOS, Designer

FONTE

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